miércoles, 10 de diciembre de 2008

Minha Copacabana querida...

Às três da tarde do já citado vinte e nove de novembro, deixei La Paz e segui para Copacabana, minha última estação em Bolívia. Como o horário real de saída nunca coincide com o escrito no bilhete, nos atrasamos em meia hora, ou pouco mais. Para chegar em Copacabana é preciso, mais ou menos na metade do caminho, cruzar ao outro lado do Titicaca em um pequeno bote. O ônibus segue em um adequado e seguro bote o mesmo trajeto. Nos acomodamos para ter o primeiro contato com o lago. Um garoto falante, que deve ter três anos, estava, ao meu lado, sentado no colo do pai. Olhou-me, apontou e disse com espanto, como se não pudesse crer no que acabara de ver: Jesus! "Deus me livre! Eu tenho medo, morrer dependurado numa cruz". Voltamos ao ônibus para seguir viagem. Tínhamos mais uma hora e meia de estrada. Chegamos em perfeitas condições em Copacabana e fui logo procurar uma hospedagem. Consegui um quarto com vista para o Titicaca, no último andar do hotel (sem pintura mesmo, fachada de alegres e tranquilos tijolos), andar esse com um belo terraço, onde a vista era ainda melhor. Tudo isso por dez pesos bolivianos. Baratíssimo. Me instalei com a tranquilidade de um sábio chinês e fui comer um peixe frito em um bar a menos de cem metros da margem do poderoso lago. Voltei para casa, fumei um cigarro no terraço e me recolhi no quarto para ler e escrever um pouco. Mas, deste pequeno e cômodo quarto, comecei a escutar música. Como, se o rádio que tenho na cabeça estava desligado? Obviamente, vinha da rua. Interessado e curioso, fui conferir o que se passava. Era uma banda, com uniforme e tudo, dessas antigas que você vê no interior, no campo, tocando músicas folclóricas e dançando. Na quase uma hora em que estive acompanhando a banda, não havia luz na pequena, tranquila e muito turística Copacabana. Melhor assim, pois a luz das estrelas, nessa noite, eram mais fortes e vivas que a luz de mil postes juntos. Teto de estrelas, cada uma com seu nome. Eu era parte de uma espécie de procissão religiosa que acompanhava a música andante, com as estrelas me protegendo naquela escuridão confortante. Fui tomado por cócegas na alma, que me fizeram rir e suspirar. Expressões de ternura e felicidade por poder estar ali. Voltei para o hotel e dormi com um sorriso na boca. Dia seguinte, domingo de sol em Copacabana. Acordei tarde, ao meio-dia, e fui ao Mercado almoçar. Mais do mesmo: sopa e segundo prato. Até um pequeno e astuto mico foi levado por sua família para o almoço. Satisfeito, saí a caminhar. Caminhando por três quartos de hora lado a lado com o Titicaca, afastei-me de todos e, quando estava sozinho com as aves e o lago, sentei-me em uma grande pedra. Estive toda a tarde tirando fotos, escrevendo e falando sozinho. No caminho de volta, um cachorro acompanhou-me em mais da metade do percurso. Não sei o seu nome, ele não quis dizer. Nunca havia conhecido um cachorro tão calado! Pelo menos não se incomodou em ser meu modelo em um par de fotos. Voltei ao Mercado para fazer uma necessária merenda. Depois de uma breve caminhada, eu já estava no terraço do hotel. À minha frente, o sol, displiscente, escondia-se por detrás das montanhas. O Titicaca completava meu quadro. Esse foi, seguramente, o entardecer mais laranja que eu vi com esses meus olhos de papel. Às minhas costas, montanhas de veludo. Deitei meu simples e ordinário corpo na cama para fumar um cigarro e ler. Gracias por presentarme a Arlt. E falar sozinho também. Mais tarde, fui ao Mercado comer minhas queridas refeições e voltei para casa. Naquela triste e generosa cama, comecei a pensar de forma nostálgica e melancólica até que me desse sono e meus olhos se fechassem sem que eu pudesse reagir com um mínino e inútil esforço bestial. Segunda-feira, primeiro dia do último mês deste dois mil e oito de inúmeros câmbios. Costumeiro almoço no Mercado para depois fazer o passeio pela Isla del Sol. Valeu a pena. Cheguei em Copacabana a tempo de ver, pela última vez, o sol se esconder preguiçosamente. Fui jantar (sim, lá mesmo) e voltei ao quarto, onde havia sonhado nas duas noites anteriores, para arrumar minhas tralhas e dormir cedo. No dia seguinte, às oito e meia, deixei minha querida Copacabana, cruzei a fronteira e fui para Cusco. A aventura ganhava ares de capítulos finais.
* Texto finalizado em Cusco - Perú
04/12/08

3 comentarios:

Gustavo Rodrigues S. Dias dijo...

Copacabana...Vi algum Global por aí? hehe

Me traz uma quentinha dessas do mercado, rola?

Abraço, El Andante de La Isla.

zenha dijo...

fala Don King!!! tudo bom ???
muito bacana os seus relatos...
conhecer a america latina deve ser uma experiencia e tanto. Pretendo fazer esse roteiro ainda... quero ver as suas fotos...
abraçoss e ate breve meu camarada.
Zenha

mpimenta dijo...

Aiai, copacabana né. Está anotado, por lá ainda passarei.

E vc, que dia chega em BH. Hoje já é dia 18/12 e aí??? Cade vc?

Beijos e saudades