viernes, 20 de mayo de 2011

Politicamente fascista

Alguns trechos do excelente texto de Marcelo Coelho publicado na Folha de São Paulo da última quarta-feira. 

"O comediante Danilo Gentili pediu desculpas pela piada antissemita que divulgou no Twitter. A saber, a de que os velhos de Higienópolis temem o metrô no bairro porque "a última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz". Aceitar suas desculpas pode ser fácil ou difícil, conforme a disposição de cada um. O difícil é imaginar que, com isso, ele venha a dizer menos cretinices no futuro"

"A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" --e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir"

"Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica. Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez. Reproduz preconceitos antiquíssimos como se fossem novidades cintilantes. "Mulheres são burras!" "Ser contra a guerra é viadagem!" "Polícia tem de dar porrada!" "Bolsa Família serve para engordar vagabundo!" "Nordestino é atrasado!" "Criança só endireita no couro!"
Diz ou escreve tudo isso, e não disfarça um sorrisinho: "Viram como sou inteligente?". 

Vale a pena ler a íntegra aqui.

lunes, 9 de mayo de 2011

John Fogerty: carta a um amigo


Fogerty em BH, no último sábado - Crédito Gualter Naves/Divulgação

Federico, foi inevitável não me lembrar de você neste último sábado. Imaginei seu sorriso de criança ao ver John Fogerty surgir no palco com a voz rasgada e a camisa xadrez. Uma pena você não estar aqui em BH...

Nas quase duas horas de show, pensei em como você ficaria feliz ao ver seu ídolo ao vivo, meu amigo. John abriu a noite com Hey tonight, e aqueles fins de tarde no Domus, quando você tocava sua bela guitarra e berrava para aliviar a tensão que a cidade grande insiste em colocar nas suas costas, vieram-me à cabeça e me encheram o peito.

Em menos de trinta minutos no palco, Fogerty já havia tocado com quatro guitarras diferentes. Não tenho dúvidas de que você ficaria encantado com a Gibson dourada. Quando fomos ao show do Bob Dylan, que sequer deu boa noite para o público, você me disse: “Se um dia você vir John Fogerty ao vivo, verá o que é um show!”. Você estava certo – apesar de até hoje eu não sentir falta do “boa noite” de Dylan naquela linda noite de 2008, quando o verão portenho já dava seus ares finais. John Fogerty sabe mesmo fazer um show, é certo. E a banda dele é sensacional, tem até um guitarrista gordinho com pinta de metaleiro que lembra Quique, o gordito.

Fogerty pulava como um menino no palco, corria de um lado para o outro. Conversou com a platéia, se divertiu e mostrou que a voz continua inconfundível. Você ficaria extasiado ao vê-lo tocar Midnight special, Cottom fields, Born on the bayou, Traveling band e Proud Mary. Se emocionaria, com a discrição que lhe é peculiar, ouvindo Long as i can see the light. I heard through the grapevine dispensa comentários. Para sorte de quem ali estava, John ainda tocou alguns clássicos: Blue suede shoes, Good golly miss Molly e Oh, Pretty Woman. Que grande show de rock!

Ao ler essa carta, meu amigo Fede, pegue a guitarra, feche os olhos, prepare a voz e imagine-se tocando ao lado de John Fogerty. Exatamente como você fazia em Rauch, quando, naquele momento, nada mais importava, a não ser o bom e velho rock and roll e a beleza de poder sonhar.
 
Texto originalmente publicado no site da Revista Ragga.

jueves, 28 de abril de 2011

E se fosse o Lula?

Todos sabemos que o senador e ex-governador de Minas, Aécio Neves, foi parado numa blitz, no Rio de Janeiro, há uns 10 dias, salvo engano. Ele teve a carteira - que estava vencida - apreendida e se recusou a soprar o bafômetro.

Agora, caros amigos, imaginem se fosse o Lula.

A coisa seria mais ou menos assim: Da série: E se fosse o Lula?

*Aproveite para conhecer o site Minas sem censura. Leia também entrevista ao Luiz Carlos Azenha, do excelente Vi o mundo.

viernes, 15 de abril de 2011

viernes, 8 de abril de 2011

Mar adentro

Há um ano...

Escrevo num pequeno caderno e o vento insiste em desorganizar estas páginas cheias de esperança e medo. Estou em cima de uma montanha e o mar dança lá longe, pacientemente. Lembro-me de Mar adentro* e daquele barquinho que vi no Lago Titicaca.

Praia do Satu - Caraíva/BA
08/04/10


* Essa cena me tocou de uma maneira impréssionante, como diria Caetano. Linda, comovente... A música, Nessun Dorma, dispensa comentários.

miércoles, 30 de marzo de 2011

No Vale dos Sonhos

Dormira pouquíssimo na última noite. Quase nada. Virava e se contorcia na cama como se uma febre causada por alguma espécie de abstinência lhe tivesse atacado como um duro e derradeiro golpe. Levantou-se e saiu pela janela para ver a Lua bem de perto. Serpenteou na imensidão do vazio. Acendeu um cigarro e deixou que a fumaça se misturasse às estrelas que cintilavam com timidez. Pensou em como seria se largasse tudo para trás e fosse apenas o que ele queria ser quando criança. Foi consumido por uma sensação letárgica, indolente. Apático, fechou os olhos e, envolto em uma aura de tristeza e glória, sentiu o céu se encolher e as estrelas se apagarem. Pisando com a leveza de um bailarino, deixou-se ir, simplesmente ir, flanando na escuridão do infinito.

jueves, 10 de marzo de 2011

Para ti, Buenos Aires...

Después de dos años y tres meses, vuelvo a encontrarte. Sabés que nunca te olvido, no? Tus calles aún sienten el peso de mis pasos y tus quioscos todavía esperan que yo entre a comprar un Jorgito para tener moedas para el colectivo. San Telmo, voy a parar en Villa Crespo, pero todavía sos mi lugar, mi lugar de la bohemia y las noches borrachas. Te quiero, mi barrio. Mañana andaré por ahí, mi Buenos Aires... Y entonces, podremos mirarnos una vez más. Espero que no sea la última.

jueves, 3 de marzo de 2011

Gracias...

Me veio como se fosse neste exato momento. Escute esse solo de sax, disse. Invadiu a pequena sala e se misturou à fumaça dos nossos cigarros. 

jueves, 17 de febrero de 2011

O palco iluminado

Vestido com sua calça jeans surrada e a camisa de estampa militar, usava uma garrafa como microfone. Caminhava de um lado para o outro no seu palco de todos os domingos.

Um palco vazio. 

Um chão de estrelas.

Um rumor de vozes que lhe gritam. 

E um milhão de mãos que lhe aplaudem.

Parque da Redenção
Porto Alegre - 06/02/2011


viernes, 11 de febrero de 2011

Causos de Brasília...

Matéria sobre a posse da Dilma na Ragga de fevereiro. 
Texto meu e fotos de Pedro Silveira.
Versão digital aqui.

martes, 8 de febrero de 2011

James Dean e o rock 'n' roll

"Dizem que se faz rock'n'roll por aí. Para mim, ele morreu em 59. Rock'n'roll era um comportamento, James Dean, todo um momento histórico. Aí veio o caos quando as indústrias não podiam mais parar de fabricar discos."
- Raul Seixas, em entrevista para a Revista Bizz, em 1986

"Sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer hoje."  
- James Dean, que faria 80 anos hoje.

martes, 18 de enero de 2011

A ira de Josué, o herói cansado

Outro dia vi num programa de TV uma cena bárbara, de fúria. Uma situação constrangedora era o pano de fundo. Pais disputavam algumas provas, uma espécie de gincana, formando duplas com seus respectivos filhos. O apresentador anunciava, uma a uma, as equipes. “Josué e o filho Eduardooo!”, gritava, enquanto pai e filho levantavam e balançavam os braços, bradando coisas do tipo: “Nós vamos ganhar!”, fazendo brotar um sorriso na cara rechonchuda de Eduardo. 

Não me recordo precisamente, mas acho que Josué e Eduardo eram da equipe amarela. O que me lembro bem é o quão constrangedora a prova era. O apresentador gritava “valendooooo!”, e os aguerridos pais, vestidos com um short colado nas pernas e uma espécie de maiô – ou coisa que o valha –, saíam de seus lugares, corriam até uma escada, subiam uns poucos degraus, mergulhavam na piscina cheia de um líquido verde gosmento, resgatavam alguma coisa que lhe valiam pontos, voltavam e entregavam aos seus rebentos, que pulavam de alegria ao receber as bolinhas. 

No primeiro mergulho, os pais saíram encharcados do líquido que os fazia escorregar, patinar pateticamente. Caindo como um bêbado, Josué descia os degraus de bunda, rindo de seu próprio número, estabacando como uma jaca no chão e se arrastando para conseguir chegar na frente dos adversários. Naquele momento, Eduardo - também chamado de Du pela família - tinha uma cara danada de biscoito feliz, os olhos quase estouravam de tanta felicidade. O físico de seu pai já não permitia que ele se expusesse de tal maneira. Com aqueles trajes então... A barriga dava contornos no ridículo maiô e as pernas já lhe faltavam. Mas ele rastejava. Eduardo só queria que o pai vencesse a prova. Só isso, para então, no dia seguinte, chegar à escola contando aos amigos. O apresentador, comovido com a entrega e o esmero de Josué, mal conseguia completar as frases. “Olha o paizão do Eduaaaaarrr!”, gargalhava. Josué deve ter uns 42 anos, já perdeu parte do cabelo e trabalha numa concessionária de motos no interior de São Paulo. 

A cada risada de filme de terror do apresentador, Josué era tomado por uma raiva incontrolável, um desprezo por cada ser humano, onde quer que ele habite. Sentindo em cada centímetro de seu corpo cansado um desejo irremediável de acabar com tudo aquilo, ele não se censurou. Não dessa vez. Invadiu a área do adversário, deu-lhe uma rasteira, se levantou, babando, como se comemorasse um gol, e berrou: “Vai tomar no cu!” Aliviado, teve a certeza de que deveria ter feito isso há muitos, muitos anos.

miércoles, 12 de enero de 2011

Pense no Haiti, reze pelo Haiti

Os haitianos farão um minuto de silêncio às 16h53 de hoje (19h53 horário de Brasília) para marcar o momento exato em que um terremoto de 7 graus de magnitude atingiu o país, em 12 de janeiro de 2010.

Um ano depois do terremoto, o país continua em ruínas. 

"Pense no Haiti / Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui"

martes, 21 de diciembre de 2010

Instituições bancárias e outras neuroses

Por volta de 11:30, Dylan e Thomas conversam....

Dylan: - E aí, meu caro. Tudo bom?

Thomas: - Porra, chegando agora no trabalho? [risos]

D: - Nada, cheguei 10h30. Tive que ir ao banco resolver minha situação, agora tenho que abrir uma conta.

Thomas demonstra uma irritação súbita...

- Puta que pariu! Você é problemático demais. Por que não aproveitou e abriu uma? Deixa de ser velho, chato, ranzinza.

D: - Você parece nervoso, mantenha a calma. O banco me deu dor de cabeça. Não faz sentido eu encerrar a conta e, logo em seguida, abrir uma.

T: - Tudo bem, mas você poderia ter ido a outro banco então, né?

D: - Hoje? Não, não queria ficar o dia inteiro resolvendo isso. Vou fazer isso depois.

Em outro ataque de fúria, Thomas reage com mais palavrões...

- Puta que pariu! Você é complicado demais, cara. Mulher não gosta disso. [gargalhadas].

D: - Hoje não estou a fim de mexer com isso. Pode ser na semana que vem. Quero almoçar, ficar tranquilo. Não posso passar mais de 45 minutos em um banco. Meu organismo reage de uma maneira incrível, quase letal.

T: - Isso tudo é criação da sua cabeça. Psicológico, murrinha para não andar como pede o Sistema.

D: - Você está equivocado. A coisa é simples: só não fui hoje porque não preciso ter pressa para abrir uma porra de uma conta. Não posso correr demais, não posso ser apurado demais, se não acabo caindo e morrendo. A multidão passará ferozmente por cima do meu corpo, que será varrido como lixo para o canto da avenida...
 
Mostrando um assustador e violento descontrole, Thomas perde a paciência por completo, interrompe Dylan e termina o assunto gritando desesperado:

- Chegaaaaa.

miércoles, 15 de diciembre de 2010

Viva os torturadores! Viva o Brasil-sil-sil!

Em uma decisão inédita, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) condenou o Estado brasileiro por não ter investigado crimes cometidos pela ditadura militar (1964-1985) no combate à Guerrilha do Araguaia.

Matéria continua no R7.

Confira os comentários de Paulo Henrique Amorim no Conversa Afiada.

Pinochet, amigo íntimo de Nelson Jobim

lunes, 6 de diciembre de 2010

Aquele olhar

Me fascina seu olhar. Me encanta quando ele brilha, ofuscando qualquer sinal de beleza a sua volta. Transborda de seus olhos um sentimento absurdo, incontrolável. Desafia-me, pois bem sei o que neles esconde. De nada adianta recorrer a filósofos, astrólogos ou vagabundos iluminados. Eles não entenderiam. Assim como na vida, para você não há resposta. Eu soube disso naquela manhã quando nos cruzamos torpes pela calçada que ainda sente o peso dos nossos passos descompassados.

Seu olhar mostrou-me o indizível, o que nem Nelson Rodrigues conseguiu decifrar em sua incessante busca pelo desnudamento da alma. Coisa de um tolo apaixonado, seguramente diria um rufião melancólico. Não me importa, realmente. Naquela fração de segundo, vi a eternidade, voei ao som de Nessun Dorma e repousei, sorrindo, atônito, na nuvem ali cuidadosamente pincelada.

E agora, diante da realidade desses dias sem graça, a chuva cai, despretensiosa, borrando da minha memória aquela reveladora manhã.

*Texto de minha autoria originalmente publicado na Revista Ragga, edição de dezembro.

miércoles, 24 de noviembre de 2010

Desde la terraza de Domus

En alguna noche de 2008...

Vagando en pedo por la terraza. La terraza esa donde fui feliz, donde canté y bailé "Honey pie", donde fumé porros y porrazos, donde saqué fotos de una guitarra mística y alenté por Cruzeiro y Boca.

¡Che, Quique! It hurts me too, ¿te acordás? ¡Me machuca igual, gordito!

¡Gabi! ¿Te acordás de esa? Someday after a while ¿Qué grandísimo hijo de puta, qué solo, no?

Que estén bien, chicos.

Los quiero. Cuidénse.

A ver si tocamos unos blues por San Telmo...

jueves, 11 de noviembre de 2010

A lágrima, límpida como prata
lhe descia a face
face ao tempo que lhe escorria
rasgando a carne

E com o corpo rendido
incapaz de sustentar uma cruz
o espelho se refletiu na alma
outrora luz, agora tonelada.

... no Museu de Arte Moderna, em Salvador
17/04/10

lunes, 8 de noviembre de 2010

“Estamos criando um monstro”

A frase acima foi dita pelo técnico Renê Simões, numa dura crítica a Neymar pela sua falta de educação e desobediência ao técnico Dorival Júnior, que acabou sendo demitido do Santos. “Está na hora de alguém educar esse rapaz”, completou. Arquétipo de Robinho, ídolo de crianças que imitam seu corte de cabelo, coreógrafo de dancinhas pós-gol e tuiteiro de todas as horas, Neymar carrega a dor e a delícia de ser um garoto de 35 milhões de euros. Criador de polêmicas, jogadas geniais e dribles que infernizam “joões” pelos gramados, o “Menino da Vila”, metade jogador, metade pop star, completou a maioridade este ano sob as luzes dos holofotes da imprensa. 

Quem está criando um monstro? A própria criatura, num ataque de autodestruição – ou de redenção? A mídia, que toca fogo no circo, lava as mãos e bate palma? Os torcedores, reféns de sua própria adoração pelo esporte bretão? Ou um país incapaz de questionar a verdadeira importância de seus ídolos?

* Texto de minha autoria originalmente publicado na Revista Ragga, edição de outubro.

lunes, 1 de noviembre de 2010

Agora é Dilma!

 
Depois de Dilma eleita, o PiG* já se arma para fazer com ela o que fez nos oito anos de Lula: desqualificar e ofender governo, ministros e a figura do Presidente.

Dilma eleita: vitória de Lula. Essa foi a manchete de hoje do Estadão. Eles querem dizer que Dilma não é ninguém. É um poste. 

O Estadão está enganado. A vitória é de Lula, minha, de quem votou na Dilma, de quem saiu da linha da miséria, de quem entrou em uma universidade pelo Pro-Uni, de quem quer um país com uma distribuição de renda mais justa e, sobretudo, de quem quer demos e tucanos longe, bem longe do poder.

Dilma neles!

* Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.