viernes, 22 de junio de 2012

Deus e a saída de Roger

Depois de dois anos e meio com a camisa azul, que já vestiu tantos craques e outros tantos que não mereceram tal honra, Roger se despediu do Cruzeiro na última terça. 


Não acredito que Roger estava sendo hipócrita ou fazendo média.

"Vivi intensamente esse sonho, infelizmente hoje é o dia de acordar", e tinha a voz embargada.

Se não como ídolo, Roger sai do Cruzeiro como um jogador muito querido pela torcida. Pela maioria da torcida, pelo menos - sempre tem os chatos que só olham estatísticas, quanto tempo ele ficava no departamento médico ou se era viável economicamente para o clube.

"Sou um cara muito emotivo e gosto de viver a minha vida com desafios e com muito amor. O agradecimento é com todo amor pelos cruzeirenses".

Gosto quando um jogador mostra esse sentimento cada vez mais em falta no mundo cínico e milionário do futebol.

Na mesma terça, Roger participou de um programa na TV.

Perguntado pelo apresentador se jogaria no rival Atlético, respondeu:

"Há coisas nessa vida que o dinheiro não compra. E a minha identificação com o Cruzeiro eu não venderia por preço nenhum."

Há cerca de um mês, as manchetes dos sites esportivos alardearam uma possível transferência do goleiro Fábio para o clube que treina em Vespasiano.


Não gostei da resposta medrosa e vacilante de Fábio.

Não o crucifico, no entanto. É o jeito dele, vá lá.

Roger, com dois anos e meio de Cruzeiro, fez o que um Ídolo deve fazer. Sorín e Alex - para citar os mais recentes - fariam o mesmo. 

Fábio, titular há mais de seis anos, ídolo da torcida e que já tem seu nome eternizado na história do clube, foi político ao responder a pergunta.

Roger escolhe seu próprio destino.

Fábio prefere deixar nas mãos de Deus.

miércoles, 16 de mayo de 2012

Crosby, Stills and Nash

Bruno Mateus/Esp.EM
Da esquerda para direita: Stills, Nash e Crosby tocaram pela primeira vez no Brasil
 
Seria leviandade de minha parte, confesso, tentar precisar um horário, mas já devia ser quase uma hora da manhã do último domingo. De repente, me senti ao ar livre – embora eu estivesse mesmo era dentro de um ginásio –, com o vento serpenteando na minha cara e espalhando a fumaça que fazia com que fiscais engravatados viessem em minha direção.
 
O concreto não mais existia – ou, se existia, havia se transformado então em um lindo céu azul, um azul forte, bonito, que carregava também um par de estrelas. Eu disse que devia ser quase uma hora da manhã. Tolice minha pensar em horário, quando naquele momento tudo se resumia a três vozes que se encontravam de maneira impressionante, três vozes capazes de fazer calar até um coração delator, meu caro Allan Poe. 


Três senhores saídos lá de 1969: Crosby, Stills e Nash. Depois de mais de quatro décadas, vieram a Belo Horizonte e fizeram um show de mais de duas horas separadas apenas por um breve intervalo. “Rock ‘n’ roll, puta que pariu!”, gritava o camarada ao meu lado. E o show teve muito rock ‘n’ roll, é verdade – Bernardo, meu caro, eles tocaram Almost cut my hair. Mas o que me encantou, que fez com que eu me sentisse ao sabor do vento num ginásio fechado foi o poder das três vozes e um violão – apenas as vozes de Crosby, Stills e Nash e um violão. Só isso. Foi um daqueles momentos em que tudo em volta perde o sentido, você não sabe mais se está em Belo Horizonte ou em um rancho em Woodstock; você só tem ouvidos para escutar a canção. E nada mais importa.

É mágico quando um artista, uma banda ou um trio conseguem hipnotizar uma plateia só com música, sem efeito, sem tecnologia nenhuma, só voz e violão. Foi assim que Crosby, Stills e Nash terminaram o show. E a madrugada de domingo ainda deixa vestígios.
 
Texto originalmente publicado no site da Revista Ragga.

miércoles, 25 de abril de 2012

Aécio e a dor de um homem traído

Me comove a dor de Aécio Neves.

O sofrimento de um homem traído. 

Nelson Rodrigues adoraria escrever sobre isso...

Aécio, o líder, o político modelo de uma turma de jovens que se protegem do sol das Minas Gerais usando chapéu Panamá.

O homem que nunca será;
 
Em maio do ano passado, o neto de Tancredo arrumou, a pedido do senador Demóstenes (ex-DEM), um cargo comissionado no governo de Minas para a prima de Carlinhos Cachoeira, personagem dos mais falados ultimamente nos noticiários políticos, envolvido com crime organizado, contravenção e outras práticas não muito republicanas.

A prima de Cachoeira tomou possse em 25 de maio do ano passado.

Os ventos do outono trouxeram novidades.

No início deste mês, quando as escutas telefônicas entre Demóstenes e Cachoeira vieram à tona, Aécio se pronunciou no Senado. 

E rasgou elogios ao homem que, segundo ele, agora traiu sua confiança.

Demóstenes, para nós que o conhecemos e o conhecemos em profundidade talvez soasse desnecessária sua presença hoje na tribuna do Senado Federal para tratar dessa questão, disse Aécio na ocasião.

"Esteja seguro, V. Exª, a sua família, aqueles que como eu tanto o admiram, de que será desta forma que V. Exª continuará a ser visto pelos brasileiros, pelos goianos e pelos seus Pares: com respeito e enorme admiração."

Assim terminou o discurso-defesa.

Os dois senadores se lambem.

Mas...

A amizade desses dois nobres e honrados políticos agora está estremecida. 

Em entrevista, o senador mineiro desabafou: "Eu me sinto traído na minha boa fé". 

O ex-governador de Minas disse que, há um ano, não poderia imaginar que Demóstenes tivesse ligação com contraventores.

Que desconhecia o parentesco da indicada e a origem do pedido.
 
Que qualquer indicação de Demóstenes credenciava o indicado.

O mesmo Aécio que disse conhecer Demóstenes em profundidade.

Agora reclama e se recolhe ao luto de um homem que foi apunhalado.
 
Se faz de ingênuo, o pobre coitado.

Aécio Never.

Porque ele nunca será.

E o Serra, que dorme com um boneco de Aécio para fazer vodu, gargalha, mostrando suas reluzentes gengivas.

A postura da imprensa
Durante toda a terça-feira e até o início desta madrugada, a notícia do envolvimento de Aécio com a contratação da prima de Cachoeira pelo governo de Minas foi divulgada nas páginas dos principais canais de notícia do país e de Minas Gerais na internet: globo.com, R7, Portal Terra, Estadão (que deu em primeira mão), Zero Hora, Carta Capital, Hoje em Dia e O Tempo - se você sentiu falta de algum jornal, não terá sido mera coincidência.


                                             Você não vale nada, mas eu gosto de você...

viernes, 16 de marzo de 2012

Criolo


UM CIDADÃO COMUM

POR Bruno Mateus
FOTOS Bruno Senna

A fala é serena, doce. O olhar, de um verde que salta às retinas, diz muito. As repostas são pausadas, bem pensadas, mas passam longe de serem previsíveis — carregam a sinceridade de quem viu muita injustiça e miséria, mas também enxergou poesia, arte e esperança no horizonte. E expõem, por inteiro, sem disfarces, um artista em busca de abrir o diálogo, de descortinar as contradições de um país como o Brasil e de fazer música por uma necessidade interna. 

Criolo canta por estar desesperado. Talvez, essa dor o acompanhe desde moleque. Junto aos seus quatro irmãos, o rapper sempre morou na periferia da capital paulista. Foi lá que ele teve o primeiro e definitivo encontro com o rap, expressão musical que lhe deu consciência, amor, voz para gritar e, de certa forma, aliviar suas angústias. 

Kleber Cavalcante Gomes já foi Criolo Doido, fundou a Rinha de MC’s, em São Paulo, e tem uma trajetória importante no hip hop. Engana-se quem pensa que só agora é que ele está mostrando a que veio. O sonho de Criolo nunca foi ser jogador de futebol, talvez por ser, como ele confessa, um zero à esquerda dentro das quatro linhas — apesar do amor que sente por esportes. Mas, sobretudo, seu caminho não deu nos gramados porque aquele moleque de 11 anos ficou maravilhado quando descobriu na música uma maneira de se expressar. Dali para frente, nunca mais largaria o rap. Quer dizer, o rap é que não o abandonaria. 

Filho de cearenses, o rapper se emociona ao falar de seus pais, dos tempos em que ia à escola com o uniforme pintado à mão pela mãe, pois não tinham grana para comprar um novo na lojinha, de quando via Seu Cleon sofrer preconceito por ser negro e quando ia ao estádio com ele ver o Corinthians jogar. Com as lembranças, boas ou ruins, fica fácil perceber o orgulho que sente por ter sido criado num ambiente de arte, inspiração e de afirmação da beleza de suas raízes. 

Criolo foi o artista mais comentado de 2011 — o álbum Nó na orelha foi eleito o melhor do ano pela lista da revista Rolling Stone, e Não existe amor em SP, a melhor música. No VMB, premiação da MTV, ele levou para casa os troféus de melhor disco, música do ano e artista revelação. Impossível passar despercebido à sua poesia, que sangra, que chama à luta, que sabe que tem muita coisa errada por aí. E, para Criolo, impossível é cerrar os olhos para tudo isso.

A entrevista continua na edição digital da Ragga de março, pág 70.

domingo, 26 de febrero de 2012

De quem é a culpa? É do Lula!


“É justo dizer que no revólver que matou Jean Charles estão também as digitais do PT e de seu governo”. Assim escreveu Clóvis Rossi, colunista da Folha, sobre a morte do mineiro Jean Charles em Londres, em julho de 2005. Jean, como você deve saber, foi covardemente assassinado pela polícia inglesa, despreparada, intolerante, burra, equivocada, sedenta em dar respostas para uma Inglaterra que vivia sob o medo – lamentavelmente, experimentando, do modo mais bruto, com bombas em metrô e o cheiro de medo no ar, as consequências de se aliar a um país que tem uma política internacional como têm os Estados Unidos. Jean imigrou para a Inglaterra no período do governo FHC. O que Lula e o PT têm a ver com o assassinato dele, cara pálida?

Lembro-me de minha mãe comentar sobre um texto de Francisco Dadut, de julho de 2007. Francisco começou assim: “Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, ‘GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS’. O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo. O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime”. Lula e seu governo, naquela ocasião, eram, segundo o brilhante Dadut, os responsáveis pela morte das mais de 200 pessoas no acidente da TAM. 

Na última sexta-feira, o apresentador e âncora do Jornal da Band, Boris Casoy – sim, aquele que espinafrou os garis e o áudio vazou ao vivo – relacionou a morte da empresária e ex-proprietária da Daslu, Eliana Tranchesi, com o governo Lula. Eliana, segundo Casoy, seria uma grande vítima do esquema do mensalão – que, como gosta de dizer Mino Carta, ainda está por provar-se –, quando, no lugar dos reais responsáveis, foi jogada às covas dos leões, humilhada por um governo que queria desviar as atenções. “O governo Lula viu em Eliana um instrumento para tentar desviar as atenções da população sobre a roubalheira do mensalão. Eliana foi exposta à execração pública e humilhada, o que deve ter contribuído, e muito, para o câncer que a matou”, finalizou o jornalista. Após falar tanta asneira, Boris Casoy espirrou. – Aqui cabe uma nota interessante: Eliana Tranchesi foi condenada a 94 anos de prisão por sonegação fiscal e contrabando. Tudo foi comprovado pela operação da Polícia Federal, batizada de Operação Narciso, realizada em julho de 2005. À época, a filha do governador de São Paulo, Geraldo Alckmim, era uma das “dasluzetes”.

O que esses três casos têm em comum, além do discurso lunático de quem os proferiu? Para mim, está claro: a campanha de desconstrução e demonização da figura de Lula e de seu governo continua a todo gás. O PiG (Partido da imprensa Golpista), expressão tão bem difundida pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, se empenha, desde o primeiro dia de 2003, em julgar e execrar Lula e seu governo. Para isso, vale esquecer os princípios básicos do jornalismo, vale mentir, vale forjar prova, vale requentar notícia antiga, vale ouvir só um lado, vale falar que o presidente bebe demais, vale dar a uma bolinha de papel o peso de uma tonelada, vale publicar ficha falsa que circulou pela internet, vale babar, quando da discussão sobre o Conselho Federal de Jornalismo, que Lula e o PT queriam controlar as redações dos jornais, vale debochar, vale publicar livro chamando o presidente de anta, vale mandar Lula se tratar no SUS, vale chamar de picareta ao vivo na TV, vale esconder as privatarias dos tucanos. Vale tudo.

Em um artigo de 2010, Luís Fernando Veríssimo diz que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de um presidente da República tão popular como Lula, que saiu com aprovação recorde, ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira.

A campanha continuará – e será, no mínimo, interessante ver a que ponto pode chegar a má fé e o ódio de classe da grande mídia que tenta, exaustivamente, marcar a imagem de Lula com as piores manchas possíveis.

Historiadores, ao trabalho.

lunes, 13 de febrero de 2012

lunes, 23 de enero de 2012

Graveola e o Lixo Polifônico no Palácio das Artes

O Grande Teatro do Palácio das Artes estava lotado. Mas não era para alguma ópera, uma superprodução ou um Chico Buarque que esgota ingressos na velocidade do desespero de quem quer ver os olhos azuis do Hollanda. O lugar que outrora acolheu nomes eruditos e orquestras sinfônicas foi cenário para o novo, para o que está acontecendo e é impossível não notar. O barulho está aí. Estão dizendo por aí.
 
E o que sai da cumbuca-multirítmica-indefinível é o Graveola e o Lixo Polifônico, banda já bastante conhecida por aqui e com repercussão em alguns centros do país, que encheu o Palácio das Artes na última sexta. A apresentação, que faz parte da programação do Verão Arte Contemporânea, renderá um DVD e serviu também para o lançamento do clipe de Farewell love song, música do último disco da banda, Eu preciso de um liquidificador

Liquidificador graveolístico que mistura um punhado de coisa – um pouco de rock brincalhão que chega a esbarrar nos Mutantes, outra tanto de samba bem-humorado com referências contemporâneas, admirável mundo novo da TV e da solidão facebookiana, algumas pitadas que lembram certos hermanos que agora só tocam quando querem. Mas não adianta definir a música do Graveola – e tampouco ela está aí para isso.
 
À vontade no palco, parece que não importava muito se a noite era num grande teatro ou num palco montado numa praça qualquer. A banda sabe bem o que fazer, e o faz com naturalidade, com um desapego moleque de quem vê com clareza onde pode chegar.

É como se jogassem como um Barcelona, trocando passes, sem erro, sem pressa, brincando, apreciando o próprio ritmo. A empatia com o público é notável. Inquietos em suas poltronas, outros em pé nas laterais, cantavam a letra de cor, dançavam, balançavam o braço de leve naquela balada, se entusiasmavam quando a música esperada chegava.

Foi um momento importante para o Graveola, para a música feita em Belo Horizonte, para quem percebe que não adianta mais esperar sentado no sofá. Isso não será televisionado. É fato. Talvez, nem haja resposta, mas o caminho está aí, nos resta trilhar. E essa estrada, meu amigo, vai se desdobrar em algo, em algum lugar... É só estar atento à hora do trem passar.
 
Texto publicado no site da Revista Ragga.

viernes, 16 de diciembre de 2011

A nova vida de Amâncio

Amâncio dos Santos Jesus ficou 11 horas na fila para conseguir comprar o novo iPhone 4S, que chegou hoje às lojas em Belo Horizonte. Ele garante que valeu a pena: “Nossa, quando chegou a minha vez senti algo estranho, irremediável, como se eu estivesse na frente de Deus ou do Diabo, e ao mesmo tempo senti também uma alegria que eu não pude conter”, afirma o jovem de 25 anos. “Comecei a rir, a gargalhar. Todos pensaram que eu estivesse enlouquecendo”, completa, colocando a mão na cara envergonhado dos pulos e socos no ar que deu ao receber a caixa com o produto. Mas ele não foi o único a se emocionar. Amâncio contou que a garota que estava na sua frente, quando pegou o novo iPhone, desabou em um choro de alívio, abraçou o celular no peito e disse, baixinho, palavras ininteligíveis.

Amâncio idolatra Steve Jobs e qualquer lançamento da Apple é capaz de tirar o jovem do sofá e colocá-lo, sem muito esforço, numa fila durante horas. Por falar em Jobs, o jovem nunca se esquecerá do cinco de outubro de 2011. “Quase não acreditei. Sabia que ele estava com câncer, mas... Fiquei mal. Foi doído, nem consegui tomar meu leite gelado na manhã seguinte. Foi como se levassem uma parte de mim, da minha vida, do que eu sou”, visivelmente emocionado, Amâncio pede para parar a entrevista e se levanta. Ele mira o horizonte por alguns segundos, suspira e senta novamente: “Me desculpe, ainda é muito difícil falar sobre isso”. Com o novo iPhone, ele espera fazer muitos amigos e encontrar até uma grande amor. “Ah, a gente sempre quer ser feliz, né?”.

Recentemente, Amâncio passou por problemas de depressão – muito a ver com a morte de Jobs e com o  cruel ataque de um vírus ao seu iMac, que acabou eliminando todos os auto-retratos que ele havia feito nos últimos meses. “Foi um período triste, me senti derrotado. Com o iPhone 4S tenho certeza de que as coisas vão ser como eram antes. É como nascer outra vez”, diz, novamente emocionado e com um olhar renovado, como se ao pegar pela primeira vez no iPhone 4S ele tivesse descoberto que a vida realmente vale a pena.

viernes, 9 de diciembre de 2011

À espera de Romário ou Ao encontro dos personagens principais

Dois dias em Brasília na captura do Baixinho. E muita coisa aconteceu

Por Bruno Mateus
Fotos Bruno Senna



Quase 12 horas de viagem e a certeza de uma entrevista agendada em Brasília. Era o que tínhamos – o destemido fotógrafo Bruno Senna e eu – a enfrentar. Um cigarro antes de entrar no ônibus para sentir a noite de temperatura até razoável faz muito bem, sim senhor. Senna chegou pouco antes de zarparmos rumo à capital federal, onde iríamos entrevistar Romário, aquele que jogou muito na Copa de 1994, foi campeão e fez Galvão Bueno berrar “É tetraaa!” como se tivesse visto a iluminação divina.

Sim, ele mesmo... O “baixinho”, o “peixe”, o “marrento”, o “gênio da pequena área” – como o definiu um outro gênio, um certo Johan Cruyff, comandante da Laranja Mecânica, a revolucionária seleção holandesa de 1974. Agora deputado federal, Romário tem se destacado por pegar firme quando o assunto é Copa 2014. O baixinho não vai dar mole para Mr. Ricardo Teixeira e sua turma, que agora tem Ronaldo no suspeito time.

Pé na estrada. Logo na primeira parada, preguiçosamente me levantei e saí para fumar. As pessoas comiam salgadinhos com cheiro não muito agradável, bebiam suco e, ok, não estão nem aí se o ministro do Trabalho pediu para sair, se o bom velhinho virá este ano ou se o filho de Wanessa Camargo está injuriado, antes mesmo de nascer, com Rafinha Bastos. Eles só querem chegar ao seu destino. Eu também.

Capítulo I



Brasília amanheceu quente. Pouco antes das 9h, flanávamos à procura de algum sinal de internet – e só achamos no shopping que fica próximo à rodoviária.

O horário combinado de estar no gabinete de Romário era por volta de 15h. Até lá, ficamos no shopping olhando e-mails, lendo notícias pouco interessantes e vendo belas garotas, acompanhadas de suas mães, fazendo compras e sorrindo como se a vida não tivesse percalços nem espinhos. 

Partimos para o Congresso Nacional. Antes mesmo das 15h, já estávamos a postos na porta do gabinete, no quarto andar do anexo 4 da Câmara dos Deputados. Romário não estava. A assessora de imprensa, tampouco. Um tempo depois, ela chega e diz: “o Romário veio, participou de uma comissão, foi embora e não atende o celular”. Eu e o fotógrafo nos olhamos e não precisávamos dizer nada para que nos entendêssemos. Para conferir à situação um ar fantasmagórico, um apagão resolveu acabar com a energia do anexo em que estávamos. De todo modo, continuamos a postos na porta do gabinete.

Em pé. Ou sentados no chão. Certo é que não era uma situação das mais prazerosas. Nos sentimos invisíveis. Só mais tarde é que fomos convidados para entrar e sentar. As horas passaram no compasso de uma tartaruga e nada do deputado. Investigamos daqui, averiguamos de lá, e descobrimos que o baixinho estava no plenário principal para uma votação. E já era 20h e cacetada, ou seja: perdemos o ônibus de volta a Belo Horizonte. Não importa, pensamos. Ainda havia esperança de conseguir a entrevista naquela mesma noite – o que, depois de muito andar, vigiar e fazer ligações, mostrou-se impossível.

Pode me ligar amanhã às 8h30, vamos dar um jeito, disse a assessora. Saímos da Câmara pouco depois das 22h. Ainda tínhamos que procurar um lugar para tomar uma ducha, comer e cair no sono. E, bem, você não imagina como foi difícil encontrar esse lugar. Dormimos rindo da nossa própria desgraça.

Capítulo II 


Não tinha outra: o jeito era ficar em cima. Às 8h42 daquela quarta-feira, lá estávamos, eu e o fotógrafo, na porta do gabinete 411. “Já te falei, homem! Você tem que ficar naquela viradinha ali, saindo do elevador. Assim você pega o Romário de jeito!”, disse Rosângela, que trabalha como faxineira na Câmara há 17 anos. Rosângela seria minha informante secreta durante aquele segundo dia.

Traçamos planos e estratégias ousadas para cercar Romário. E o baixinho chegou às 11h, acompanhado pelo assessor parlamentar. Romário chegou, respondeu ao meu “bom dia” e antes que eu balbuciasse outra frase ou me colocasse à sua frente, entrou no gabinete para uma reunião.

Tínhamos de correr contra o tempo – o fotógrafo tinha passagem comprada para 12h50. O assessor me disse palavras não muito animadoras, o que foi confirmado pouco mais tarde pela assessora de imprensa: Romário não daria a entrevista. Nem cinco minutos para uma foto. A bela garota se desculpou, disse que estava extremamente chateada. Cinco minutos, insisti, faço a entrevista por telefone, daqui ou de BH, mas apenas cinco minutos para uma foto! Em vão. Perdemos viagem. Romário saiu pela tangente e nos meteu um belo chapéu.
 
Finale

Sozinho, já que Bruno Senna, o destemido fotógrafo, havia ido embora, resolvi perambular pela Câmara. E ali fiquei o dia inteiro. Vi olhares bastante suspeitos em seus ternos alinhados, conversinhas estranhas ao pé do ouvido, secretárias com seus decotes nem tão reveladores assim, belas pernas de assessoras elegantes e aparentemente comportadas. Vi deputados nos corredores cercados por mil assessores preocupados como se houvesse, a qualquer momento, uma possível tentativa de assassinato. Jair Bolsonaro, Eduardo Azeredo, Jean Wyllys, Garotinho, Esperidião Amin. Estavam todos lá.

E eu, um jornalista com um gravador na mão, um maço de cigarros amassado no bolso e ideias absurdas na cabeça, caminhando sem Romário, sem lenço nem documento pelos corredores que viram e escutaram histórias inacreditáveis. Mas, ora veja, um jornalista não fica sem pauta – a menos que ele queira. E eu não queria.

Isaac Queiroz vende picolé há 10 anos na porta da Câmara; a cearense Gertânia passou por ali só para conhecer Romário e Tiririca; o piauiense João Pereira dos Santos Filho tenta ganhar a vida em Brasília como pintor; João José Rodrigues sente saudade de sua mulher, que o deixou há menos de um ano; e o taxista Manuel Martins está há 40 anos em Brasília e até gosta da cidade. Esses personagens, cada um à sua maneira, aliviaram minha frustração por não ter entrevistado Romário e me fizeram ver a beleza, a dor e os sonhos que cada um deles carrega nos olhos. E, no fim das contas, Romário é só mais um no meio da multidão. Ou coisa que o valha.
O repórter e Rosângela, sua informante especial

* Texto originalmente publicado aqui.

lunes, 31 de octubre de 2011

Essas pessoas, Lula e o câncer



Uma das maravilhas das redes sociais – leia-se Twitter e Facebook – que mais me atraem é ver como o ser humano pode ser desprezível. Ali, naqueles espaços virtuais, ele se mostra assustadoramente patético, mostra seu lado mais vergonhoso. Digo isso pelas frases insurgentes, indignadas, como se as pessoas que as escreveram estivessem cobrando mais decência e dignidade de uma sociedade em ruínas, sobre a doença do ex-presidente Lula. Que vá se tratar no SUS, bradam aos quatro ventos na internet. Mas ele não dizia que a saúde pública neste país é uma maravilha, por que ele não se trata lá?, dizem os inteligentes e politizados de plantão. É bom que a gente não precisa mais escutar as bobagens que ele fala, diz o idiota esperando causar alguma graça. É bom para Lula aprender a ser mais humilde, tive o desprazer de ler por aí. Ele nunca se privou, nunca teve uma vida regrada, disse Lucia Hippolito, da rádio CBN, citando tabagismo e alcoolismo(!) como ingredientes responsáveis pela doença de Lula – a parte mais conservadora da imprensa também escancara sua podridão de pensamento. As opiniões de Reinaldo Azevedo – escreve para a Veja, claro! – e seus seguidores são de dar asco.

Antes de ser petista e ex-presidente, Lula é um ser humano. Não se faz piada ou ironia com a doença de alguém – tampouco com a opção sexual ou a cor da pele. Usar o mau gosto para fazer rir é artifício bobo, raso. Não se deveria fazer piada, mas se faz. Fala-se que mulheres feias deveriam agradecer se forem estupradas, fala-se de garis insignificantes do alto de suas vassouras, de nordestinos, gays e negros. E se acham engraçadinhos. Eles deveriam dizer: “viram como sou um perfeito idiota?

Quem faz ironia e piada não mostra nada além do que sua falta de solidariedade e respeito para com a dor alheia, desnuda a ausência de um mínimo de humanidade que se espera de alguém que vive neste breve e estranho século. Pensam estar fazendo um favor ao Brasil, abrindo os olhos dos ingênuos que ainda não enxergam que Lula e o PT são os responsáveis pelas mazelas de um país que tinha tudo para dar mais certo, não fosse pelos séculos de caminhos errantes. Nunca se roubou tanto neste país, vociferam por aí. Ah, esses petralhas, comentam outros acolá. Ora, o que o PT tem a ver com o câncer de alguém, seja ele Lula ou o Zé da esquina? O que corrupção tem a ver quando o assunto transcende a política? Causou-me arrepios ler algumas coisas hoje. Tristeza, mesmo. Em ver como o ser humano pode ser pequeno – não que isso seja lá uma surpresa, ou coisa que o valha.

Essas pessoas babam um ódio de classe impressionante. Lula sempre foi tratado pela elite brasileira e por quem, sendo ou não elite, carrega no peso dos sapatos um preconceito e um conservadorismo de dar inveja a quem frequenta o Tea Party, como um boçal, um nordestino ignorante, um cara que teve sorte nos tantos acertos, afinal ele herdou um Brasil de FHC nos trinques, pronto para crescer – se esquecem que o sociólogo da Sorbonne ajoelhou-se três vezes às portas do FMI. Essas pessoas não pediram que José Alencar fosse se tratar no SUS. Mas que Lula, o nordestino apedeuta, sim.

Essas pessoas não aceitam o progresso social dos últimos oito anos. Criticam o sistema de cotas em universidades públicas, acham o Bolsa Família uma simples esmola eleitoreira, populista. Mas que absurdo, onde já se viu isso? Meu filho perder vaga em universidade para um negro entrar é o fim da picada, dizem, se achando na mais perfeita razão. Essas pessoas não se conformam com o fato de Lula ser, hoje, um líder mundial de prestígio, respeitado por onde pisa. Essas pessoas são as que estão dando show de mau gosto e pequenez. Lula não merece ser julgado e execrado num momento como esse. Ninguém merece. 

Maravilhas das redes sociais - reflexo da mediocridade dessas pessoas que me fazem desconfiar que, realmente, o número de imbecis é infinito.

viernes, 14 de octubre de 2011

O que pesa sobre todos nós


Chegou para vender uma bala e acabou se sentando. Pediu um cigarro. Faltavam-lhe os dentes da frente e o suor da caminhada – imagine você o calor daquela tarde – fazia com que sua face brilhasse, realçando os contornos inglórios que a vida lhe havia imposto.

– Tá difícil, queixou-se.

Fabrício é do interior, mas está na capital há oito anos. Morou na rua por algum tempo; hoje um albergue da prefeitura é o seu lar, para onde volta todo fim da tarde, exaurido, com algumas moedas no bolso e poucas notas amassadas. Lá ele encontra a mulher e as duas filhas: uma de quatro e outra de dois anos. Ele e sua mulher têm uma filha mais velha, que lhes foi tirada pelo conselho tutelar quando eles ainda moravam na rua. A menina foi entregue para a adoção. Ela tem nove anos.

– Sei que ela foi adotada por um casal, um bom casal. A mulher não pode ter filhos, e agora eles têm a minha. Não sei mais nada. Quem sabe daqui uns anos ela não vem me ver?

Os olhos cansados, de um verde cinza, triste, se embotaram em lágrimas e a saudade não poderia ter melhor tradução do que o semblante daquele homem que aparentava ter muito mais do que sua real idade.

- Nem o telefone deles eu sei, não sei nada. Mas estão cuidando bem dela. É difícil, vai saber quando ela vai voltar, se é que um dia ela vai voltar. Ah, eu queria tanto que ela voltasse. Ela vai voltar falando diferente, né? Com outro sotaque. Tudo bem que tenho mais duas filhas, mas a primeira é diferente, né? É a primeira, cara.

Fabrício terminou o cigarro, se despediu e voltou a arrastar seu chinelo gasto pelas ruas da cidade. À medida que se afastava, deixava um rastro de dor e angústia capaz de apertar o peito de quem por ali passasse e até dos poucos pássaros que descansavam preguiçosamente nos galhos retorcidos pelo tempo.

Hoje faz um ano que Fabrício não vê sua filha.

Porto Alegre
06/10/2011

viernes, 19 de agosto de 2011

Sábado 12 am

O gosto da noite anterior ainda persistia em sua boca. O sol, que entrava timidamente pela fresta da janela, não chegou a incomodá-lo. Respirou desconfiado, sonhando de olhos abertos. Foi invadido por um sentimento estranho, que o fez levantar da cama como se levasse um susto. No banheiro, pisou no chão frio com os pés suados. Redenção, o vômito. Preguiçosamente, voltou para a cama, cúmplice de todo sua dor.

Pensou nos amigos que ele nunca conheceu, aqueles amigos que estavam escondidos em seus sonhos, desamparados. Cerrou os olhos, o céu parecia lhe engolir. Sentiu o coração ficar frio, vazio. Ele só queria alguém ali para sustentar sua mão quando ela fraquejasse. Só.

Sucumbiu, sublime, tendo apenas aquele filete de sol e o som do silêncio como companhia .

miércoles, 10 de agosto de 2011

Piaf

Eu só queria te ver cantar
irrecuperável canção, apenas uma vez
nos salões, na rua ou naquela bodega
sua voz no silêncio das ruelas
cinzas no chão, mulheres perdidas
crianças em rodas a escutar

Eu só queria te tocar
entre sorrisos e lágrimas
se você aqui estivesse, um trago de vinho
não trago em mim nada além
da esperança de mirar o palco
e ver a glória dos anos dourados

Eu só queria chorar
amores que se foram com o vento
canções sopradas no intento
de que você pudesse voltar, ah...
um desejo último, o olhar que se vai
perdido no último beijo
E agora só me resta chorar.

sábado, 18 de junio de 2011

Every day i have the blues



- Quando você vai dormir?
- Só amanhã! Blues, Pituca, blues!

14/08/10
E me falha a caneta...

miércoles, 8 de junio de 2011

O melancólico adeus de Ronaldo ou Como não homenagear um ídolo

A Globo tentou e enfiou pela goela do torcedor. O Galvão se esforçou. O Tino Marcos cavou dali, o Caio comentou de lá. Mas a despedida de Ronaldo foi de dar vergonha. 

Ronaldo foi um excelente jogador, um craque de verdade. Dos melhores que vi jogar. Mas ontem tive pena dele. Ou do papel a que ele se prestou: refém dos interesses da Rede Globo e de Ricardo Teixeira, o presidente picareta da CBF. No intervalo do jogo, uma volta olímpica tão sem graça quanto a modelo magrela na passarela, como canta Zeca Baleiro. As palavras dele foram tão insossas que me encolhi de vergonha no sofá. Ok, talvez essa falta de paixão seja  mesmo característica do brasileiro, enquanto nossos hermanos argentinos, uruguaios e chilenos têm isso pregado na alma.



Não digo que Ronaldo não merecia uma festa de despedida. Por tudo o que representa, ele merece. Mas como foi feito ontem, não. Seria mais respeitoso ter feito um jogo de brincadeira, de compadres, de amigos, para o gorducho se despedir. Que chamassem jogadores com os quais ele jogou nos clubes, na seleção... Que o grande homenageado fosse ele, e não como fizeram na noite de ontem, enfiando-o para jogar 15 minutos como quem diz: "Taí sua homenagem, fizemos e ponto final. Agora dê licença que o seu tempo já passou. Obrigado".

Nem importa tanto o quão gordo ele está. Maradona se despediu numa La Bombonera lotada e El Diez estava gorducho, inchado, mas a homenagem que o argentino recebeu foi digna do jogador que ele um dia foi. O peso de Ronaldo não importaria, se as condições da despedida fossem outras. Se ele bebe, fuma ou gosta de sair com travestis é problema dele. Mas colocá-lo para correr com jogadores que estão em atividade e contra uma seleção fraquíssima, bem verdade, mas que daria tudo para não tomar uma goleada, só o colocou numa situação desnecessária, constrangedora. É assim que se faz uma homenagem?

Me lembrei de como foi a despedida para Juan Pablo Sorín, em novembro de 2009. Aquilo sim foi uma linda homenagem. Ronaldo também merecia.

Ronaldo merecia ter o nome gritado pela torcida, mas o que se ouviu ontem foram vaias para a seleção brasileira e gritos de "olé" quando a Romênia tocava a bola.

Mais melancólico, impossível.

viernes, 3 de junio de 2011

Sonhos de papel


Tenho um papel na minha frente
o que escrever?
Algo de vida,
ou algo de morrer?
Se é de morte,
o que vou fazer?

Se me chega agora,
o que posso fazer?
Se me pergunta, a carne
o que vou responder?

Se me come, me rasga
Termina a farsa.

13/08/2010 - Belo Horizonte
Sexta-feira, noite bêbada.

lunes, 30 de mayo de 2011

Vale a pena ler: Este lado do paraíso

Acordou rindo e seus olhos percorreram com preguiça o ambiente, sem dúvida um quarto com banheiro num hotel de categoria. Sua cabeça zumbia. Imagem após imagem se formava, perdia a nitidez e dissolvia-se diante de seus olhos, mas, fora a vontade de rir, ele não tinha nenhuma reação inteiramente consciente. alcançou o telefone ao lado da cama.
"Alô? Qual é o nome deste hotel? Knickerbocker? Muito bem, traga-me dois uísques com soda." 
(Este lado do paraíso, F. Scott Fitzgerald, pág. 237)

lunes, 23 de mayo de 2011

Día de la memoria

Ontem assisti ao documentário El Nuremberg argentino, sobre o julgamento, em 1985, dos ex-ditadores que comandaram o país de 1976 a 1983. Quando estive em Buenos Aires, em março deste ano, participei da Marcha de la memoria, que lembra e pede justiça pelos crimes cometidos durante os governos militares, como tortura, sequestros e o desaparecimento de 30 mil civis. Algumas fotos daquela tarde-noite fria, de mate, pizza e San Telmo.







viernes, 20 de mayo de 2011

Politicamente fascista

Alguns trechos do excelente texto de Marcelo Coelho publicado na Folha de São Paulo da última quarta-feira. 

"O comediante Danilo Gentili pediu desculpas pela piada antissemita que divulgou no Twitter. A saber, a de que os velhos de Higienópolis temem o metrô no bairro porque "a última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz". Aceitar suas desculpas pode ser fácil ou difícil, conforme a disposição de cada um. O difícil é imaginar que, com isso, ele venha a dizer menos cretinices no futuro"

"A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" --e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir"

"Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica. Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez. Reproduz preconceitos antiquíssimos como se fossem novidades cintilantes. "Mulheres são burras!" "Ser contra a guerra é viadagem!" "Polícia tem de dar porrada!" "Bolsa Família serve para engordar vagabundo!" "Nordestino é atrasado!" "Criança só endireita no couro!"
Diz ou escreve tudo isso, e não disfarça um sorrisinho: "Viram como sou inteligente?". 

Vale a pena ler a íntegra aqui.

lunes, 9 de mayo de 2011

John Fogerty: carta a um amigo


Fogerty em BH, no último sábado - Crédito Gualter Naves/Divulgação

Federico, foi inevitável não me lembrar de você neste último sábado. Imaginei seu sorriso de criança ao ver John Fogerty surgir no palco com a voz rasgada e a camisa xadrez. Uma pena você não estar aqui em BH...

Nas quase duas horas de show, pensei em como você ficaria feliz ao ver seu ídolo ao vivo, meu amigo. John abriu a noite com Hey tonight, e aqueles fins de tarde no Domus, quando você tocava sua bela guitarra e berrava para aliviar a tensão que a cidade grande insiste em colocar nas suas costas, vieram-me à cabeça e me encheram o peito.

Em menos de trinta minutos no palco, Fogerty já havia tocado com quatro guitarras diferentes. Não tenho dúvidas de que você ficaria encantado com a Gibson dourada. Quando fomos ao show do Bob Dylan, que sequer deu boa noite para o público, você me disse: “Se um dia você vir John Fogerty ao vivo, verá o que é um show!”. Você estava certo – apesar de até hoje eu não sentir falta do “boa noite” de Dylan naquela linda noite de 2008, quando o verão portenho já dava seus ares finais. John Fogerty sabe mesmo fazer um show, é certo. E a banda dele é sensacional, tem até um guitarrista gordinho com pinta de metaleiro que lembra Quique, o gordito.

Fogerty pulava como um menino no palco, corria de um lado para o outro. Conversou com a platéia, se divertiu e mostrou que a voz continua inconfundível. Você ficaria extasiado ao vê-lo tocar Midnight special, Cottom fields, Born on the bayou, Traveling band e Proud Mary. Se emocionaria, com a discrição que lhe é peculiar, ouvindo Long as i can see the light. I heard through the grapevine dispensa comentários. Para sorte de quem ali estava, John ainda tocou alguns clássicos: Blue suede shoes, Good golly miss Molly e Oh, Pretty Woman. Que grande show de rock!

Ao ler essa carta, meu amigo Fede, pegue a guitarra, feche os olhos, prepare a voz e imagine-se tocando ao lado de John Fogerty. Exatamente como você fazia em Rauch, quando, naquele momento, nada mais importava, a não ser o bom e velho rock and roll e a beleza de poder sonhar.
 
Texto originalmente publicado no site da Revista Ragga.